O ANESTESISTA

O Anestesista

Conto Urbano

jaleco

Sentado à mesa, o doutor Milton Pasquene fez as anotações do último paciente do dia. Era um pedido de exame de rotina em que precisava ser utilizada a anestesia geral e o seu concurso como anestesista se fazia necessário. Pasquene escreveu as suas ponderações e analisou o caso em um documento do Word no laptop particular. Em seu ponto de vista, iria retificar os colegas médicos solicitantes, dizendo que não havia necessidade de anestesia geral para aquele tipo de exame. Era um procedimento caro e invasivo, no seu entender. Para ele, quanto menos uma pessoa tomasse anestesia, ou sofrer uma cirurgia, melhor, optava sempre pelos métodos menos invasivos. Nesse aspecto, o doutor Milton era bastante ponderado.

Vivia uma rotina atribulada, sem horário certo para dormir, pois fazia vários plantões durante a semana e não tinha uma vida social satisfatória. Queria subir na carreira, conquistar um padrão confortável com alguns luxos para o seu futuro, o seu e da sua esposa, Raquel, e os filhos que iriam advir dessa união.

Tudo transcorria de acordo com o que planejara. A existência não havia ainda dado grandes aborrecimentos. A vida, como uma mariposa alegre, rodeava-lhe de encantos e ele galgava fácil a senda da carreira de médico.

Havia escolhido ser anestesista por causa de um tutor que lhe granjeara uma sincera afeição na época da faculdade. O médico Anistaldo fora mais que o seu professor: um amigo e quase um pai para Milton, naquele tempo de estudos e de profunda dedicação à profissão de Hermes. Era tão mais próximo dele do que o próprio pai. Não sabia explicar o porquê da imediata afinidade desde que o conhecera nem por que o estranho lhe era mais próximo do que o próprio pai.

Não malograva, contudo, o genitor: ele lhe havia proporcionado tudo o que desejava, desde que Milton optara por continuar a árvore genealógica de médicos da família.

Milton queria ser músico na adolescência. Entrou para o Conservatório Municipal aos 9 anos para estudar violão clássico. O pai via a música como uma matéria de complementação dos estudos, não algo a ser levado a sério ou mesmo para tirar o sustento. Quando chegou a época do vestibular, Milton prestou em diversas faculdades para música e medicina. Passou nas duas graduações, medicina na USP e música na Unesp. Com a vã ilusão de que daria conta de cursar as duas juntas, resolveu fazer a matrícula para ambas. Ao falar para os pais, logo foi rechaçado: “Filho, você nunca vai conseguir levar as duas adiante. É muita coisa”, falou a mãe tentando apaziguar a situação e demover a idéia de sua cabeça, pois sabia que iria trazer muitas brigas com o seu pai.

– Mas eu quero, é o meu sonho!

– Sonho não paga as contas! Você vai ser pobre! E uma farsa para a família, que tanto lhe considera e que pagou os seus caros estudos na escola Bandeirantes, uma das escolas mais caras de São Paulo, para você escolher agora ser músico! Olha só, agora eu vejo o idiota que eu fui!

– Mas, pai, o que eu posso fazer? Eu gosto de música e vou fazer os dois!

– Imbecil, você não vai conseguir fazer as duas! Caia na realidade!

– Ah, então, eu faço música, que é a minha paixão.

– E como você vai fazer para se bancar? Eu não sustento vagabundo. Pode escolher música, sim, mas saiba que não terá mais mesada nem pai, pois eu não sou pai de artista, porque artista é tudo vagal. Pode escolher! Não tem problema!

O rapaz ao ouvir as ferinas palavras paternas ficou branco. O silêncio daquele momento ia dar o mote a partir dali no relacionamento entre pai e filho.

Milton ficou calado, não disse mais nada nem para a sua mãe. Dirigiu um olhar sem emoção para os dois e fechou-se em seu quarto.

*****************

Ia se levantar para se dirigir à sala do colega para entregar os seus apontamentos, porém uma tontura e náusea fê-lo desistir do intento. Um suor frio correu à face já descorada. Sentindo as mãos formigarem, ficou de olhos fechados na cadeira por alguns minutos.

– De novo, não! Deus, me tira desse suplício! Não quero voltar ao que era antes! Eu sou um fraco! Como posso ter entrado nessa! Por favor, Deus, me tira essa agonia!

Não obstante, a visão começou a ficar turva e em poucos segundos seu corpo junto com a cadeira de rodinhas tombou ao chão.

Anacleu, o colega de trabalho, técnico de laboratório, ao ouvir o estrondo, correu para socorrer o amigo.

Ao entrar na sala, fechou logo a porta para que ninguém mais o incomodasse. Ao perscrutar os pulsos e abrir as pálpebras do doutor, Anacleu molhou as têmporas e esfregou os pulsos de Milton.

– Cara, reaja! Mano, que cê fez agora, hein? Você dá cada susto! Poxa, podia ser mais discreto!

Milton, ao ouvir a voz de Anacleu, foi aos poucos abrindo os olhos.

– É a falta “dela” que fez você passar mal? Eu lhe disse que tem que tomar com calma. São poucos “mls”, cara.

O doutor Milton ia fazer menção de falar alguma coisa, mas não conseguia.

Anacleu conseguiu fazer com que o colega deitasse no sofá.

– Fica calmo, que logo, logo, isso vai passar. É passageiro. Vou fazer um favor para tu, mas não fique acostumado.

Anacleu foi até o armário, pegou uma seringa e um vidrinho em que se lia: Dolantina.

– Pronto, agora sim! Me dá o seu braço!

Milton fez menção que não, puxou o braço para si.

– Ah, que isso, cara! Eu consegui essa belezinha agora a pouco! Não seja fracote! Logo, logo você vai estar outra pessoa.

Anacleu segurou o braço do amigo, apalpou a pele e aplicou a injeção.

Milton suspirou profundamente. Logo em seguida, começou a esboçar um sorriso.

– Aqui está, Pasquene! Aprende comigo e não bobeia, hein?

Milton sentou-se no sofá de couro da sala e ficou olhando para Anacleu com olhos vidrados.

– Que isso, cara! Tá me paquerando?

– Seu idiota! Não, né!

– Ah, é a sensação maravilhosa né?

– Sim, imbecil! Por que você foi me dar justo essa merda! Eu estou tentando parar!

– Ah, vá! E foi só um pouquinho! E vc já está outra pessoa! Gosto de ver você assim: animadão! Hahaha Ah, e não vai sair correndo e pegar a primeira enfermeira, aqui não, hein? Estou avisando você, depois eu não consigo livrar a sua cara! Você sabe muito bem onde encontrar as “primas”!

Com a respiração ofegante, Milton pegou a chave do carro e saiu porta afora sem se despedir do colega.

Ao ligar o carro, calafrios de prazer inundavam seu corpo. Moveu o automovel em direção à avenida Indianápolis, famosa por ter travestis perfeitas, esculpidas por cirurgiões plásticos. Saiu do carro apressadamente para achar as suas garotas favoritas, as trans.

Conseguiu encontrar a loira e a ruiva, que já lhe havia feito companhia em outros momentos. Ao chegar ao motel, as duas acompanhantes começaram os “trabalhos”.

O doutor tirou a roupa e deitou-se na cama. A loira alta pegou um “pino” e derrubou em cima da cabeceira da cama o conteúdo. Passou o dedo no pó e esfregou na narina do doutor. O médico e os dois travestis seguiram noite adentro nos folguedos da atividade sexual descarrilhada.

De manhã, o anestesista acordou sozinho no quarto. As horas já estavam adiantadas. Precisava ir para o serviço, mas antes passaria em casa para se arrumar e tomar um banho para tirar o cheiro de motel e de luxúria do corpo.

Ao chegar em casa, Raquel tomava o desjejum. Não desviou o olhar da xícara de café que tinha nas mãos quando Milton falou bom dia.

– Querida, que surpresa! Não esperava encontrá-la aqui!

Raquel, com os olhos secos e olheiras profundas e magoadas, jogou a xícara em direção ao médico.

– Cafajeste! Safado! Safado é o que vc é!!! Não tente me enganar, eu sei bem onde você estava!!

– O quê? Que isso, mulher! Você vem no meu apartamento para me insultar e me queimar com o meu próprio café? Você é uma piranha mesmo!

– Que eu saiba esse apartamento também é meu, eu também ajudo a mantê-lo!

– Seu amigo! Não tem nada que daqui que é seu! E se quiser saber, estou farto de você, dessa sua cara de sonsa…. Aguentei a noite toda, mas agora não! Ah, saia daqui, vagabunda!

– Meu Deus, você está descontrolado, cada vez mais se afunda nessa vida insana! Eu não vou sair! Eu moro aqui, não se lembra? Se alguém tem que sair daqui, é você, seu safado!

– Não saio, você é uma “periguete”, prostituta dos infernos!

– Nossa, você tá pirando. Meu Deus, o que está acontecendo?

Milton olhou para a esposa e a figura dela se transformou num inseto com uma vagina enorme. Olhou de novo e já não era mais um inseto, mas, sim, a figura da prostituta da noite anterior projetada pela sua mente ainda sob efeitos dos poderosos narcóticos: morfina e cocaína.

– Olha, eu já te paguei, nós curtimos a noite, foi ótimo, mas não era para você ter me seguido. Se a minha mulher descobre, ela vai me matar! Vai embora!

– Milton, do que você está falando?

– Sai daqui! Senão eu vou chamar a polícia! Quer dizer, melhor não, senão, você pode me dedurar e a Raquel vai ficar sabendo. Eu vou é tirar você à força.

– Milton, Milton, para com isso! Eu sou a Raquel! Você está louco, totalmente pirado! Você está tendo uma miragem, só pode ser das drogas que você usa! Aiii, me larga! Socorro!!

– Cala a boca!

O médico puxou Raquel pelos braços, abriu a porta e empurrou com força a esposa em direção à escada.

– Sua megera, não vai me perseguir mais!! Você só serve para eu usar! A Raquel não pode saber que você tá aqui, sua prostituta! Ela é a minha mulher, a futura mãe dos meus filhos, é claro! Ela nunca pode saber do que acontece comigo fora do nosso ambiente de trabalho, ouviu bem? Hein? Me responda! Ah, ficou quieta né? Pode ficar quieta aí, amontoada. Não quero saber!

Milton saiu batendo a porta atrás de si.

Raquel, desacordada, caída no chão frio, entre os dois lances das escadas, se mexeu devagar. O vizinho, alarmado pelos gritos, abriu a porta e socorreu-a.

Milton Pasquene, alheio ao que acontecia ao redor, tomou um banho, vestiu a roupa branca de médico, chamou o elevador, ligou o carro e dirigiu-se ao hospital.

Sua primeira paciente: uma estudante de medicina à beira da overdose de midazolam.

 

 

Autora: Claudia Isadora Fernandes de Oliveira