Inútil mortal

carvalho

Sob a influência de inúmeras reflexões sobre o que vim fazer nessa existência, ao ler O homem e seus símbolos, de Carl Jung, encontrei esta preciosidade:

“Um carpinteiro nômade chamado Stone viu, no decorrer das suas viagens, em um campo próximo de um altar rústico, um velho e gigantesco carvalho. Disse a seu aprendiz que admirava o carvalho: “Esta árvore não tem qualquer utilidade. Se quiséssemos fazer um barco com sua madeira, ele logo apodreceria; se quiséssemos usá-la para ferramentas, elas logo se quebrariam. Para nada serve esta árvore, por isso chegou a ficar assim tão velha.”

Mas naquela mesma noite, numa hospedaria, o velho carvalho apareceu em sonhos ao carpinteiro e disse-lhe: “Por que você me compara às árvores cultivadas, como o pilriteiro, a pereira, a laranjeira, a macieira e todas as árvores frutíferas? Antes de amadurecerem os seus frutos, as pessoas já as atacam e violentam, quebrando-lhes os galhos e arrancando-lhes os ramos. As dádivas que trazem só lhe acarretam o mal, impedindo-as de ver integralmente, até o fim, a sua existência natural. É o que acontece em todos os lugares; por isso esforço-me há tanto tempo para permanecer completamente inútil. Pobre mortal! Crês que se eu tivesse servido para alguma coisa teria chegado a essa altura? Além disso, tu e eu somo ambas criaturas; então como pode uma criatura erigir-se em juiz de outra? Inútil mortal, que sabes a respeito da utilidade das árvores?”

O carpinteiro acordou e pôs-se a meditar sobre o sonho. mais tarde, quando o aprendiz perguntou-lhe porque só havia aquela árvore a proteger o altar rústico, respondeu-lhe: “Cala-te! Não falemos mais nisso! A árvore nasceu aqui propositadamente, porque em qualquer outro lugar seria maltratada. Se não fosse a árvore do altar rústico, talvez já a tivessem derrubado” (Chuang-Tzu)

E complementa: “O carpinteiro (…) verificou simplesmente que realizar seu destino é o maior empreendimento do homem e que o nosso utilitarismo deve ceder às exigências da nossa psique inconsciente”.

Li em algum lugar que ter uma vida normal é um luxo destinado a poucos. Queremos ser especiais, construir algo que vai impactar a sociedade, ter um dom extraordinário, o que não significa alcançar a felicidade. Paz interior e amor próprio é que deve ser entendido como uma conquista espetacular e que a vida que levamos é a que precisamos para a nossa evolução, ou individuação, como Jung diria, e que isso deve bastar. Claro que queremos mais e isso não é um problema quando não nos subjugamos a ele.

O caminho do autoconhecimento é, por si só, uma aventura fantástica. Quando conseguimos vencer uma atitude limitante, o prazer que disso resulta é um dos mais gratificantes, porque vem da alma, e tudo que é da alma subsiste, nos fortalece e nos deixa mais felizes.

Podemos ser uma árvore inútil aos olhos da sociedade e estar tudo bem. Obrigada, Chuang-Tzu.

por Claudia Isadora Fernandes de Oliveira

 

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