Redação dos 39

Redação dos 39 anos

Ao chegar perto dos 40 anos, algumas reflexões surgiram em minha cabeça: O que é que estou fazendo da minha vida? Estou apenas pagando conta? Será que estou aproveitando a minha existência como deve ser? “To be or not to be”. “Ó céus, ó vida”.

Compreendo bem mais agora do que antes. Hoje, sou muito mais tranquila e levo na mansidão na maior parte das vezes o que me acontece. Porém, isso não quis dizer santidade nem que eu realizei todos os meus sonhos, como, por exemplo, o de namorar o homem da minha vida, casar e ter filhos. Numa perspectiva biológica, sei que as chances de engravidar estão diminuindo. Sei que dá para adotar e eu entrei na fila de adoção. Há umas 2 semanas a psicóloga do Fórum me ligou: um bebê de 9 meses, mãe dependente química, com problemas de saúdes consideráveis. Ela perguntou se eu queria conhecer. Tremi. Procurei minha psicóloga. Chorei. Cheguei à conclusão de que, nesse momento, morando sozinha, sem rede de apoio, apenas uma fonte de renda, mesmo tendo amor para dar, não tenho condições psicológicas e materiais ainda de assumir uma tarefa tão grande. Não conheci a criança e liberei a psicóloga do Fórum para procurar uma família mais estruturada, que dê tudo o que essa criança precisa. Pensei, pensei e saí da fila.

A experiência me mostrou que, mesmo se a criança fosse saudável, não consigo, ou melhor: não quero ser mãe nessas condições. Percebi que quero uma pessoa ao meu lado para embarcar nessa aventura de criar um ser, biológico ou não.

Na atual circunstância, faço coisas que me preenchem, como pós em arteterapia, piano, dança do ventre. Ainda não é tudo, ainda não cheguei ao meu porto seguro. E qual é ou onde está ele?

Vivi os últimos 16 anos sozinha. A vida me trouxe esse desafio. Não foi o que tinha sonhado para mim, mas aconteceu assim. Acredito hoje que meu espírito precisava dessa experiência. Vim nessa reencarnação para aprimorar meu autoconhecimento, minha evolução espiritual. Como o que acontece com outras pessoas na mesma situação, a caminhada foi solitária, na maior parte das vezes. Claro que não adquiri total sabedoria sobre tudo. Falta-me muito. As crises vieram e virão. Passei e vou passar por elas com mais elegância, no mínimo. Eu espero.

Tenho minhas fantasias. Gostaria de ter um dom extraordinário para a música, saber compor, me sustentar com isso, me dedicar inteiramente às artes, viver em outro país. Será esse o meu caminho?

Não quero passar a próxima década reclamando do meu serviço, das minhas frustrações amorosas para minha psicóloga. Nem eu nem ela merecemos. Ou também sonhar com algo muito longe da minha realidade.

“Precisamos florescer onde Deus nos plantou”. Haroldo Dutra, palestrante espírita, fala sobre a reforma íntima, “não espere o jardim ideal”, continua dizendo. Para mim, o jardim perfeito seria em Londres, não em Guarulhos. Mas como? Não tenho passaporte vermelho. Ficar ilegal não está nos meus planos. Trabalhar como faxineira tampouco minha coluna permitirá.

Em Guarulhos, sou funcionária pública há 16 anos, fazendo a mesma coisa pelo mesmo tanto de tempo. Tenho estabilidade, mas não motivação. Talvez eu reclame de barriga cheia dentro da realidade brasileira, onde várias pessoas não tem emprego. É a costumeira insatisfação do ser humano de não estar contente com o que lhe acontece, aquela vontade de ter uma vida grande e não monótona? “O que desejas talvez não seja o que precisas”, ditado que martela minha cabeça.

Tive má-vontade de criar vínculo nessa terra que não foi a minha primeira opção? Tive. Confesso. E devo confessar também que foi a única opção, o único local que eu consegui passar num concurso. Talvez seja  mesmo o único lugar que o meu espírito mereça ou que precisa para florescer, como diria o fofo do Haroldo. Ou não, vai que tudo mude? Eita espírito rebelde.

Não sei responder ainda a essas inúmeras perguntas que me atordoam, a única coisa que vou fazer é não reclamar. Não vai ser tarefa fácil, porque é o que mais tenho feito, para desenraizar do meu hábito precisarei fazer uma macro cirurgia, tipo transplante mesmo.

E até agora não tem sido fácil. A vida é difícil, pois é!, não viemos a passeio. Estamos aqui para evoluir e não para satisfazer paixões e desejos, pois é!, mas continuarei comendo chocolate.

Uma certeza eu tenho: eu gosto de estudar e ajudar outras pessoas. Vou investir nisso, aliás, continuar investindo. É o que levamos daqui. Se sou espírita praticante, tenho que me importar com o que realmente é essencial.

A minha meta não vai mais ser em cima de conquistar uma pessoa ou parir. Vou desviar o foco, porque, afinal de contas, não tem dado certo. Terá sido uma cegueira minha? Ou o meu caminho para a luz? Continuei caminhando, procurando soluções, evoluí no fim, mesmo não tendo aquilo que eu desejava. Ah, foi o que foi. A questão agora é ajustar as velas.

Outra coisa que quero é a verdadeira comunhão com Deus, estar una com Ele, entender seus desígnios e estar em paz com o que Ele quer para mim. Deixar Ele assumir o leme.

Acho que agora realmente cheguei a uma resposta.

por Claudia Isadora Fernandes de Oliveira

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8 comentários em “Redação dos 39

  1. Olá, Claudia. Outro dia li que uma das leis da mecânica quântica é a de que precisamos soltar para receber. Talvez precise desencanar um pouco, deixar a vida fluir.
    As melhores coisas sempre acontecem quando estamos distraídos. E como dizia nosso querido escritor Mário Quintana, “o segredo é não correr atrás das borboletas.” Então siga cuidando do seu jardim, querida.
    Abraço!

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  2. Tenho 27, antes de mais.
    Contudo, e dizendo desde já que é apenas um conselho amigo, preciso de lhe dizer isto:
    a) Não há pares perfeitos para nós (ninguém é perfeito para nós a não sermos nós próprios…);
    b) Amar é gostar das qualidades e sentir falta dos defeitos do outro;
    c) Só se acha o que se procura; se não procurares, não encontras.
    d) Trabalho não é vida;
    e) Dinheiro vai e vem.

    Um abraço de Portugal.
    AK

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  3. Excelente reflexão. Acho curioso que eu tenha passado recentemente por processo semelhante, mais ou menos com a mesma idade, que está sendo materializado em um livro. Neste exato momento, estou no processo de ajuste de velas. Estou leve como nunca estive em toda a minha vida. Se eu vou quebrar a cara eu francamente não sei, mas no meu íntimo eu tenho a certeza de que tudo dará certo: a minha intuição grita isso!

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